sexta-feira, 8 de abril de 2016

O que esperar quando não está esperando - parte II


Porque Eslováquia?
Até mesmo aqui eles me fazem essa pergunta, no início achei que era um pouco de menosprezo com o próprio país, mas é pura curiosidade.
EU NÃO ESCOLHI A ESLOVÁQUIA, ELA ME ESCOLHEU.
Depois que você faz a prova e sai a classificação, vem à espera da chamada e parece que dura séculos. Morri de medo achando que não ia conseguir uma vaga e quando me chamaram só tinha  um país disponível: México.
Porque não México?
Às vezes bate uma dorzinha no coração por ter dito não ao México, mas sei que fiz a coisa certa. O maior motivo foi a língua, para nós brasileiros não é muito difícil aprender espanhol (e isso é algo que eu quero fazer depois que voltar pro Brasil).
Depois do não, veio a tristeza de saber que o meu sonho não iria ser realizado. Porém, logo depois uma vaga nova abriu: o distrito 2240, que é composto pela República tcheca e Eslováquia. Quando se aceita essa vaga não se escolhe um dos dois países.
Eu queria muito que meu país fosse a Republica Tcheca, porque como a maioria das pessoas, eu não sabia nada sobre a Eslováquia. Então quando o e-mail chegou falando que eu iria para Eslováquia, eu surtei, mas depois fui me acostumando com a ideia.
Quando se é um intercambista  você ouve de tudo das pessoas, como é perigoso, como pode acontecer isso e aquilo, mas se dermos ouvidos nunca faremos nada, e a uma coisa que o intercambista precisa muito é CORAGEM, coragem para morar num lugar totalmente diferente, com uma linguagem, cultura desconhecida, coragem para enfrentar os problemas e saber lidar com eles. Nós intercambistas esbanjamos de coragem.
"Ah então você vai pra Eslovenia né? Tchecoslováquia?  Você vai fazer o que lá? Não vai estudar? Mas vai perder um ano."
Não perdi um ano, eu ganhei, assim como todos os outros intercambistas. Posso me comunicar em uma nova língua, conheci muitos lugares e pessoas que nunca teria conhecido se não fosse o meu intercambio. Em sete meses eu olho para trás e me sinto diferente, consigo ver atitudes que eu não gostava mas que fazia, me pergunto o porque de alguma delas. Sinto falta da minha família, e agora realmente posso dizer que dou valor a algumas coisas que antes eu mal me importava.

Minha primeira família anfitriã

A primeira vez que entrei em contato com eles foi através da minha irmã, Vladka, ela está em intercambio no México, ainda não encontrei-a pessoalmente. Nunca entrei em contato com toda a família antes de chegar apenas com a mãe e a irmã. Na  casa que eu iria morar era a mãe, Daniela, o pai, Dušan, a Gabirela, a minha irmã mais nova. Depois de um tempo, acabei descobrindo que ia ter mais uma irmãzinha, que ia nascer depois que eu chegasse.

Eu, Gabika e Adrianka no Natal. 
Eu me apeguei muito a eles, passei muito tempo com eles, forma cinco meses morando lá. Minha mãe estava sempre em casa, devido a licença maternidade e também meu pai (ele discorda). Danka me ensinou algumas coisas na cozinha, como fazer panquecas, e me deixava ajudar na cozinha mesmo eu sendo um desastre enquanto ela é maravilhosa cozinhando. Dušan era cheio de piadas, mas vivia me mandando estudar, acho que nunca vou esquecer disso.

Gabika era um pouquinho mais difícil de lidar, mas acho que me sai muito bem, a gente fez um bom trabalho juntas com os biscoitos de Natal, ela toca piano maravilhosamente, dá té uma invejinha.  Adrianka é coisa mais fofa que já vi na vida, Dušan e Danka foram muito bem sucedidos com suas três filhas.
Eles me levaram para vários lugares na Eslováquia: Trencin (pra visitar os avós de parte de pai), Bojnice, Stare Lubovna, Spissky hrad e também um voo por Presov, a cidade que eu morava. Também fiquei próxima dos meus avós por parte  de mãe, dormia na casa deles quando precisava ficar em Kosice, eles levaram eu e uma outra intercambista para visitar Praga.
No fim, dar adeus foi muito difícil, mas quando se é intercambista precisamos de mudanças mesmo 
que elas sejam um pouco doloridas.


Minha escola
Dia das bruxas, quando todo mundo foi fantasiado.
Eu estudo em um escola bilingual, então algumas das minhas aulas são em inglês (geografia, história, artes e estudos sociais) o que ajuda um pouco a não ficar no tédio o momento todo. As aulas começam ás oito, e não necessariamente temos todos as aulas por dia, que são sete, tem dia que saio depois das duas tarde e dia que saio ao meio-dia. Depois de cada aula temos um intervalo que pode ser de 5, 10 ou 20 minutos e quase todo mundo come durante os intervalos.  Temos que nos levantar quando o professor chega na sala como sinal de respeito, em algumas escolas é necessário trocar de sapato, mas não é o caso da minha. 


No início do ano escolar (setembro), haviam quatro intercambistas na escola: Mannah (USA), eu, Diego (México) e Matti (Bélgica).


Nós trocamos de sala a dependendo da aula, sentamos em dupla, temos aula em laboratório toda semana. Aqui temos que chamar os professores de "senhor professor" e "senhora professora", falamos "bom dia" e "adeus", porque "oi" e "tchau" é considerado falta de educação.
Nós almoçamos geralmente no final da aula ou quando dá tempo, pagamos pelo almoço, mas nem todo mundo almoça na escola, a comida não é tão boa. Saudades da comida da escola do Brasil.
As meninas se vestem muito bem para vir para a escola, nada de uniformes, algumas até usam salto. Me sinto em um desfile de moda todo santo dia.
Eu e a Mannah em aula, quando a professora pegou meu celular e começou a tirar fotos.


Minha segunda família anfitriã
No dia 18 de janeiro me mudei para minha segunda família, o que foi muito diferente da  minha primeira. Enquanto na primeira família tinha sempre alguém em casa, na segunda estou constantemente sozinha, pois meus pais trabalham o dia todo. Eu também mudei de cidade, agora não preciso mais acordar ás 5:30 da manhã para ir para escola. 

Moro só com meus pais, Jan e Renata. Eles tem dois filhos, um está no Brasil fazendo intercambio (que fala muito bem português) e outro mora em Bratislava á seis horas de distância. Estou morando a quase três meses com eles, já visitei a Polônia, Tatras e iremos em breve a Hungria.
Meu pai trabalha bastante, ele tem uma empresa onde eles montam projetos e fazem mobília. Já minha mãe trabalha em um escritório do estado. Ambos tem me ajudado muito com a língua, ainda mais que minha mãe não fala inglês, porém compreende. 


Os avós de parte de pai, moram do outro lado da rua, é só atravessar. Minha avó é um doce de pessoa e meu av, que sempre troca meu nome, fala alemão, sempre tenta me mostrar coisas sobre lá ou sobre qualquer outra coisa e sempre tem alguma história para contar. Os outros avós, infelizmente eu só encontrei uma vez, mas são igualmente amáveis. Nessa família eu tenho uma tia, que também é minha professora de matemática, ela é sempre animada e divertida.
Troco de família essa semana, vamos ver como as coisas vão se sair.





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